{"id":149,"date":"2020-03-19T07:00:24","date_gmt":"2020-03-19T10:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.intuicao.com\/?page_id=149"},"modified":"2020-03-08T06:58:28","modified_gmt":"2020-03-08T09:58:28","slug":"conto-agua-nova","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/intuicao.com\/bk\/conto-agua-nova\/","title":{"rendered":"Conto: \u00c1gua Nova"},"content":{"rendered":"<h3>\u00c1gua Nova.<\/h3>\n<p>Toda a \u00e1gua por l\u00e1 era muito barrenta. Ningu\u00e9m jamais havia visto outro tipo de \u00e1gua al\u00e9m daquela \u00e1gua amarronzada. Todos estavam muito habituados \u00e0quela situa\u00e7\u00e3o e ningu\u00e9m questionava, nem mesmo pensava no assunto.<br \/>\nNaquela regi\u00e3o, muito seca e afastada de grandes centros, havia um garoto um pouco diferente, meio estranho na vis\u00e3o dos moradores. <em>\u2018Ele perguntava coisas demais\u2019<\/em>, at\u00e9 <em>\u2018duvidava do que os mais experientes diziam\u2019<\/em> \u2013 <em>\u2018coisas estranhas\u2019<\/em> no dizer destes.<\/p>\n<p>Bem, o fato \u00e9 que, ele, de algum modo, sempre acreditou que era poss\u00edvel haver algum outro tipo de \u00e1gua; ele n\u00e3o sabia como ela seria exatamente, mas sabia que era poss\u00edvel encontrar algum tipo de \u00e1gua \u2013 na sua imagina\u00e7\u00e3o, mais limpa e clara.<\/p>\n<p>Certo dia, o garoto, depois de muito brincar e passear pela regi\u00e3o, caminhando pelos arredores da vila onde morava, encontrou um senhor, a quem nunca tinha visto; ele lembrava um monge e se vestia todo de marrom, com uma t\u00fanica como a que havia visto um dia numa foto e haviam dito a ele que era roupa de monges \u2013 pessoas que se afastavam da vida normal e se dedicavam a rezar e coisas assim.<\/p>\n<p>Era um caminhante que por l\u00e1 passava. O garoto viu que aquele velho senhor olhava para ele e sorria com serenidade.<br \/>\nOlhando para o garoto, levantou as m\u00e3os como que segurando algo, um objeto que parecia refletir raios de luz que brilhavam perante seu olhar curioso.<br \/>\nO garoto sentiu-se atra\u00eddo e sentindo algo familiar naquele senhor se aproximou. Ele segurava um jarro de cristal e olhando para o garoto estendeu aquele jarro em dire\u00e7\u00e3o a ele.<br \/>\nO garoto perguntou: o que \u00e9 isto?<br \/>\nO senhor respondeu: \u00e9 um presente para voc\u00ea!<br \/>\nO garoto apanhou o jarro e olhou dentro.<br \/>\nL\u00e1 estava! Algo que n\u00e3o sabia como poderia ser, mas l\u00e1 estava: era uma \u00e1gua l\u00edmpida e cristalina.<\/p>\n<p>Depois, estando seguro de ter dado o jarro ao garoto, o senhor simplesmente levantou um bra\u00e7o e acenou dando adeus. E se afastou, sumindo ao longe, enquanto o garoto admirava o presente recebido.<\/p>\n<p>O garoto guardou aquele presente com o maior carinho. Mas logo lhe veio a vontade de compartilhar o presente recebido com os demais moradores do local onde morava.<br \/>\nLogo, ele quis mostrar o que tinha ganhado, era uma \u00e1gua limpa e clara, algo que ningu\u00e9m nunca tinha visto e, talvez, nunca imaginado. O garoto estava muito contente. Logo foi convidado a mostrar o seu presente aos senhores mais influentes do local.<\/p>\n<p>O que viria a seguir se constituiria numa grande surpresa para ele. De in\u00edcio, n\u00e3o entendeu o que estava acontecendo. Ao mostrar a nova \u00e1gua \u00e0s pessoas, ouvia delas a afirmativa: n\u00e3o, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, \u00e9 uma ilus\u00e3o, e assim foi.<br \/>\nE cada um a quem ele mostrava aquela \u00e1gua l\u00edmpida, como que querendo refor\u00e7ar o que diziam, jogava um pouquinho de terra naquela \u00e1gua, dizendo algo tipo: vamos ver como ela fica. E assim foi, em pouco tempo a \u00e1gua que era l\u00edmpida e cristalina logo estava turva e barrenta, como aquela que todos conheciam.<\/p>\n<p>O garoto nunca entendeu o porqu\u00ea daqueles senhores fazerem aquilo, n\u00e3o acreditarem naquela nova \u00e1gua que mostrara a eles, e o quanto especial ela era e; \u2018al\u00e9m de n\u00e3o concordarem, ainda jogavam um pouco de terra nela\u2019, sujando algo \u2018s\u00f3 para provar que n\u00e3o existia algo melhor do que aquilo a que estavam acostumados\u2019; assim ele via o que havia ocorrido.<\/p>\n<p>Assim, o tempo passou. O garoto, que nunca deixara aquela regi\u00e3o, envelheceu; mas continuara sempre a acreditar naquela \u00e1gua. Oras! Chegou a t\u00ea-la nas m\u00e3os por um tempo. Se acreditava antes de ver, imagine depois de t\u00ea-la em m\u00e3os!<\/p>\n<p>O garoto envelheceu e um dia, numa de suas solit\u00e1rias caminhadas ao redor da vila em que morava, dentre as poucas \u00e1rvores e terras secas que se viam ao longe, parou com espanto: l\u00e1 estava o mesmo senhor que um dia lhe dera a \u00e1gua. Ele sorria, como da outra vez! Desta vez, ele parecia brilhar um pouco mais.<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-medium wp-image-12446\" src=\"https:\/\/intuicao.com\/bk\/bk\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/monk-63460_640-169x300.jpg\" alt=\"monk-63460_640\" width=\"169\" height=\"300\" data-id=\"12446\" srcset=\"https:\/\/intuicao.com\/bk\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/monk-63460_640-169x300.jpg 169w, https:\/\/intuicao.com\/bk\/wp-content\/uploads\/2016\/04\/monk-63460_640.jpg 360w\" sizes=\"auto, (max-width: 169px) 100vw, 169px\" \/><\/p>\n<p>O agora envelhecido garoto se dirigiu na dire\u00e7\u00e3o do velho senhor e, como que querendo se desculpar \u2013 Oras! Havia perdido o tesouro que havia recebido h\u00e1 tanto tempo, ia come\u00e7ar a falar, quando o senhor, apenas sorrindo colocou o dedo indicador entre os l\u00e1bios, fazendo sinal de sil\u00eancio.<br \/>\nE disse ao outrora garoto: &#8216;voc\u00ea acreditava em algo e aquilo veio a voc\u00ea&#8217;. Fez uma pausa de segundos que pareceu uma eternidade e continuou, &#8216;quando voc\u00ea acredita voc\u00ea encontra. As pessoas n\u00e3o acreditavam e n\u00e3o queriam acreditar. Elas n\u00e3o estavam prontas, e assim, o mais f\u00e1cil para elas era negar o que estava na frente delas, e para refor\u00e7ar o que acreditavam, jogavam terra na \u00e1gua cristalina at\u00e9 terem transformado algo novo em algo parecido com o que podiam conviver.&#8217;<\/p>\n<p>O antigo garoto, agora um adulto, observava aquele senhor e apenas ouvia.<br \/>\n<strong>&#8216;Acreditar naquilo que n\u00e3o \u00e9 vis\u00edvel aos olhos \u00e9 um ato especial na vida!&#8217;<\/strong> <em>&#8220;Muitas pessoas s\u00e3o chamadas, mas poucas as escolhidas&#8221;<\/em>, disse um dia o mestre a quem dedico minha vida.<br \/>\n\u00c9 como um presente que \u00e9 dado a todos os seres humanos, mas poucos o aceitam. Voc\u00ea sabe, continuou o velho senhor: aqueles que aceitam s\u00e3o os poucos que encontram os tesouros, e sabe o porqu\u00ea disto?<br \/>\nO garoto o olhava, sabendo que n\u00e3o tinha a resposta.<br \/>\nO senhor continuava: H\u00e1 muitos tesouros guardados, mas sabe onde eles est\u00e3o?<br \/>\nEles est\u00e3o guardados em nossas consci\u00eancias, e, de quando em quando, eles se mostram nos sonhos e nos ideais das pessoas. Quando as pessoas percebem aqueles \u2018presentes\u2019 elas despertam tesouros em suas vidas. De tempos em tempos alguns destes presentes s\u00e3o dados diretamente \u00e0s pessoas, como no seu caso, mas isso n\u00e3o \u00e9 o mais comum, o normal \u00e9 que elas tenham que descobr\u00ed-los. E ent\u00e3o, aqueles que os encontram sentem que a beleza da vida \u00e9 muito, mas muito mais maravilhosa do que podem imaginar os que s\u00f3 cr\u00eaem naquilo que conseguem entender em seus v\u00e3os racioc\u00ednios. N\u00e3o importa se ningu\u00e9m mais acreditou, a &#8216;luz&#8217; que brilha em quem acredita \u00e9 que faz a diferen\u00e7a. Essa &#8216;luz&#8217; fala \u00e0s almas das pessoas e ali deixam alguns &#8216;reflexos&#8217; que nunca se apagam. \u00c9 assim que acontece.\u2019 Essa luz habita a natureza; ela estava naquela \u00e1gua l\u00edmpida e brilhante que voc\u00ea teve em m\u00e3os. A vida tem essa luz. Apenas temos que cuidar de n\u00e3o apag\u00e1-la.<\/p>\n<p>O ex-garoto experimentava uma mistura de alegria e tristeza \u2013 ele n\u00e3o saberia definir o que sentia, s\u00f3 sabia que \u2018aquele sorriso tranq\u00fcilo\u2019 daquele senhor ficara gravado em sua mente e sentia-se preenchido de muitos reflexos luminosos dentro de si. Sabia que o que acreditava quando crian\u00e7a, mesmo quando &#8216;sem evid\u00eancias&#8217; era t\u00e3o verdadeiro como quando teve aquela \u00e1gua em suas m\u00e3os. Seu sentimento era de gratid\u00e3o.<br \/>\nPassado alguns minutos, ele viu o senhor se afastando e logo sumir ao longe.<\/p>\n<p>N\u00e3o muito tempo depois, aquele garoto de antigamente, estranho e muito perguntador faleceu. Alguns se lembravam de suas manias e questionamentos, outros haviam dele se afastado. A \u00e1gua do local, por sinal, estava ainda mais barrenta que em seus tempos de crian\u00e7a. Mas sim, enquanto ele viveu, sempre expressou uma ponta sorriso e, de tempos em tempos, deixava os &#8216;reflexos&#8217;, que brilhavam dentro de si, pular para fora e ent\u00e3o falava \u00e0s crian\u00e7as e a raros transeuntes que por ali passavam, falava da esperan\u00e7a, da import\u00e2ncia em acreditar e, de tempos em tempos, da \u00e1gua l\u00edmpida e cristalina que um dia acreditava, ainda iria fazer parte da vida de todos. Assim foi a vida dele. O quanto os &#8216;reflexos&#8217; que compartilhou com aquelas crian\u00e7as iriam se acender na vida delas ele n\u00e3o sabia, mas isso n\u00e3o importava, pois sabia que &#8216;reflexos&#8217; se manifestam quando a luz brilha na alma e, no devido tempo, eles se manifestariam.<\/p>\n<p><em>Texto de Herbert Santos Silva, escrito nos tempos da revista Presen\u00e7a, na Faculdade de Engenharia, em Itajub\u00e1, Mg.<br \/>\nSite Intuicao.com<br \/>\nImagem: pixabay<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c1gua Nova. Toda a \u00e1gua por l\u00e1 era muito barrenta. 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