Valores nas Organizações

por Paulo Conte Vasconcellos

O Conselho de Administração é o grande guardião do sistema de Governança Corporativa de uma organização. Uma das principais funções do Conselho é a definição da Visão Estratégica da empresa. Para que a visão seja claramente estabelecida, é necessária uma etapa anterior que inclui a definição dos valores da organização.

No Brasil, onde a maioria das empresas têm controle definido, as crenças e valores refletem muito a visão de seus controladores. Exemplo claro disso é a Natura. Nas suas crenças, a empresa destaca que “o compromisso com a verdade é o caminho para a qualidade das relações”. Portanto, a verdade é um dos valores fundamentais para a empresa. Outro exemplo bastante significativo é o Grupo Orsa. Refletindo a visão de seus acionistas e a preocupação com a sociedade, o Grupo Orsa, que inclui a Orsa Celulose Papel e Embalagens e a Jarí Celulose, entre outras empresas, estabeleceu que 1% do seu faturamento bruto anual seja destinado para a Fundação Orsa. A fundação desenvolve uma série de projetos importantíssimos para crianças e adolescentes. Os acionistas do Grupo Orsa acreditam na ação empresarial como agente transformador da sociedade, o que significa olhar além da geração de riqueza do acionista, integrando também a geração de riqueza social e o desenvolvimento de modelos que possam ser utilizados pelos agentes regulamentadores e pelo governo.

No entanto, a simples definição dos valores de uma organização e o fato de colocá-los expostos em quadros bonitos nos corredores não é suficiente. Isto não indica que tais valores são colocados em prática. Por exemplo, uma grande corretora de valores americana tem entre os seus valores o “Respeito pelas Pessoas”. No entanto, quando um funcionário pede demissão ou é demitido, é muito comum que ele seja acompanhado imediatamente até a saída. Onde está o respeito?

Cabe ao Conselho de Administração conhecer a visão dos acionistas e definir quais os principais valores que serão disseminados na empresa. Victor Pinedo, em seu livro Tsunami, escreve que “todas as pessoas devem ser capazes de tomar decisões com base no conjunto de valores, propiciando à empresa a possibilidade de atuar como um bloco coeso e unificado, embora ágil, flexível e independente”. Pinedo afirma que “é preciso gerar em todos os stakeholders internos o importante sentimento de congruência, que brota do comprometimento pessoal com os Valores próprios da organização para a qual dedicam a maior parte de sua vida ativa. Isso só é possível à medida que haja uma capilarização interna dos valores”. O Conselho de Administração precisa certificar-se de que a empresa tem mecanismos para disseminação dos valores e monitoramento no sentido de que os mesmos sejam incorporados e observados.

Já existem organizações sem fins lucrativos preocupadas com a disseminação de valores nas organizações. O Instituto Vivendo Valores (www.vivendovalores.org.br), lançado oficialmente em março deste ano, criou o programa Vivendo Valores nas Organizações. Este programa foi desenvolvido para resgatar valores pessoais e transformar não apenas o indivíduo, mas também as organizações. É direcionado para organizações que sabem que organização de sucesso é aquela que tem princípios.

O programa Vivendo Valores nas Organizações lista doze valores no tempo verbal infinitivo para dar a idéia de ação: confiar, respeitar, ser ético, dialogar, ser líder, inovar, trabalhar em equipe, manter o foco, lidar com mudanças, comunicar, motivar e ser responsável. O GPTW – Great Place to Work Institute incluiu no seu modelo cinco dimensões de valores: credibilidade, respeito, imparcialidade, orgulho e camaradagem.

Além do alinhamento com seus acionistas, os valores de uma empresa têm muito a ver com as práticas de seu dia-a-dia, entre as quais está o modo de produção e sua influência na qualidade de vida – ou seja, na felicidade das pessoas. As tendências macroestruturais se refletem nas culturas organizacionais. Alguns tipos de cultura ajudam, enquanto outros prejudicam o desempenho econômico das organizações.

Deve estar claro para todos os conselheiros qual é a cultura organizacional, quais são os propósitos da empresa e quais são seus valores primordiais. Somente com esta análise preliminar o Conselho de Administração estará apto a desempenhar seu papel de guardião da Governança Corporativa.


Paulo Conte Vasconcellos
Sócio da ProxyCon e membro de Conselhos de Administração

Foto: disponibilizada pelo banco de imagens do site stockxpert

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