
Respeitar
Caso 5 – falta de humildade impedindo o crescimento pessoal e profissional, revisando sua percepção
Este foi um caso difícil para mim, e, por mais que tenha me esforçado não consegui ver uma melhora nesse coachee.
Esteja ele onde estiver, sei que está se esforçando para melhorar.
João era um executivo na área financeira, por volta de seus quarenta anos, muito ativo e bastante materialista.
Procurou-me para ajudá-lo em um processo de transição bastante difícil, pois havia trabalhado por muitos anos nos Estados Unidos e não havia se integrado muito bem no Brasil. Após um bom tempo procurando uma nova posição, foi contratado por uma empresa de médio porte, mas, por ser uma empresa nacional, João a menosprezava e dizia que não entendia as pessoas que trabalhavam lá, nem tampouco eles o compreendiam.
Sua saída era certa e tudo era uma questão de tempo.
O interessante é que observei em João um comportamento típico de muitos executivos que só conseguem ver o “grande retrato” da vida, e não conseguem dar atenção e respeitar as pequenas coisas. Respeito é uma das virtudes mais difíceis de se conquistar, mas não somos educados para valorizar pequenas coisas.
Todo desenvolvimento humano começa pelo auto-respeito e auto-estima. Com a auto-estima fortalecida podemos ajudar outras pessoas, mas não podemos ajudar se estivermos enfraquecidos. Aprendemos que devemos sempre ajudar o próximo, mas o que não nos contaram na educação ocidental é que antes temos que nos fortalecer.
O caso do João continuou e ele acabou sendo demitido. Começamos tudo novamente, mas a questão é que ele não parou para observar onde tinha errado. Para ele, o ponto central dos acontecimentos estava no outro, no mundo exterior. Ele não conseguia, naquele momento, enxergar que a responsabilidade é sempre nossa. Este é um aprendizado difícil, mas no turbilhão em que vivemos é mais fácil transferir a responsabilidade.
Ele encontrava-se ainda mais fragilizado. Concentrei-me em fortalecê-lo, pois era a única alternativa que restava. Aos poucos consegui alcançar meu objetivo, e João reuniu forças para alçar novos voos. Recolocou-se em uma multinacional, onde se sentia muito à vontade, e voltou a trabalhar novamente. Na semana seguinte, ele foi convidado para trabalhar em outra empresa, também multinacional, onde ele sentia que tinha mais afinidade com o negócio. Novamente o apoiei nessa difícil transição – sair de uma empresa na qual ele estava trabalhando há poucos dias, para uma outra empresa.
Pedi para que mantivesse contato, para que eu pudesse ajudá-lo a perceber o rumo que sua carreira estava tomando, já que ele ficava tão envolvido com o trabalho. Chamo esse processo de “tomar a temperatura do coachee”.
Depois de muito tempo, conseguimos agendar um almoço. Tudo parecia estar normal, pois percebi que sua força estava voltando. Observei também uma certa arrogância, sinal de falta de respeito, de sentir-se superior. Ele oscilava entre a baixa auto-estima e a superioridade, e não percebia que somos todos iguais, somente com papéis diferentes. A nobreza vem de dentro do ser humano, de suas ações, palavras e pensamentos, não de suas posses ou papéis exercidos, como ocorre com o sentimento de superioridade.
Sugeri um novo encontro em dois ou três meses.
Passaram-se oito ou nove meses sem contato, e resolvi ligar. Imediatamente notei que havia algo estranho, pois prontamente ele aceitou conversar. Marcamos um encontro r na semana seguinte, mas precisei cancelar nossa sessão. Aconteceu o que eu temia. Demoramos para conversar e João mergulhou no “modos operandi” anterior, ou seja esqueceu que somos pessoas e pensava somente nos resultados. A propósito, ele já não estava mais na empresa, havia sido desligado. Consegui localizá-lo em sua casa e descobri que mais uma vez ele tinha sido um agente de mudança. Isso causou um impacto negativo muito forte nas outras pessoas, e o processo reverteu-se contra ele, a famosa lei de ação e reação.
Não é fácil ser um agente de mudança negativa, pois sempre há o retorno da ação que praticamos. Perdemos contato e não sei onde ele anda hoje, mas acho que a vida nos ensina de uma maneira ou de outra. As histórias se repetem até aprendermos, seja de maneira fácil ou difícil.
O respeito é tão importante em todo o processo, que espero que eu possa identificá-lo ou sensibilizá-lo com este caso.
Resumo:
Respeito é algo difícil de aprender, mas fácil de perder, sobretudo para quem já teve muito sucesso no mundo dos negócios. Nesse momento o fluxo da energia do sucesso se rompe e as pessoas passam a caminhar para trás, até aprenderem a lição.
Convite à uma Dinâmica
Lembre-se de um momento em sua vida – uma ocasião em que você respeitou e seguiu adiante, e com isso atingiu o sucesso.
Descreva uma situação presente em sua vida, que você poderá melhorar, se você realmente respeitar. Pense no passado, em o que o motivou a respeitar, e traga esta força para o momento presente. Porque você não respeita, para que possa dar certo? O que você deve respeitar, para que dê certo? Como respeitar?
————————————————
Ingrid Schrijnemaekers – consultora de Gestão de Mudança na Souza Queiroz Academy (sócia) e professora da Pós-Graduação em Administração da Fundação Getúlio Vargas. É membro fundador do Instituto Vivendo Valores, capacitadora e facilitadora do Programa VIVE Rua Risco (Vivendo Valores na Educação para Crianças de Rua ou em Situação de Risco), e facilitadora do Programa VIVO (Vivendo Valores nas Organizações). Como coach, já auxiliou centenas de executivos a planejar sua carreira. Têm ampla experiência em desenvolvimento de projetos e apresentações pela sua vivência nas áreas de marketing e recursos humanos em empresas nacionais e multinacionais em países como Angola, Argentina, Brasil, Canadá e Estados Unidos.
Foto: disponibilizada por Clix