Em nosso artigo anterior*, abordamos a importância dos valores nas organizações. 
Neste artigo, procuramos enfatizar a importância para as organizações de ter um propósito claramente estabelecido. Quando fazemos uma análise crÃtica do mundo em que vivemos, observamos uma crise de dimensões intelectuais, morais e espirituais; uma crise de escala e premência sem precedentes em toda
a história da humanidade. O recente sucesso do filme “Quem somos nós?” (www.whatthebleep.com )
mostra um crescente interesse das pessoas na busca de respostas a perguntas muito antigas, tais como: Quem somos nós? De onde viemos? Para onde vamos? Qual o propósito de nossa vida? Da mesma forma, para as organizações é fundamental a reflexão sobre estas questões e a definição clara de seu propósito.
O estabelecimento de um propósito ou de uma missão é um tema relativamente novo no campo da administração de empresas. Surgiu como assunto relevante a partir do artigo “Miopia do Marketing”,
publicado pelo professor Ted Levitt na Harvard Business Review, em 1960, no qual ele afirmava que “muitas empresas possuem uma visão errada daquilo que é uma empresa. Sobretudo, as empresas definem seus negócios de forma muito limitada”.
A partir da década de 1960, os estudos sobre “missão” se dividiram em duas grandes correntes. A primei-
ra, afirma que “a missão é um instrumento estratégico, uma disciplina intelectual que define o raciocÃnio co-
mercial e o mercado-alvo das empresas”. A segunda corrente coloca o tema de forma mais ampla e afirma que a missão “é a cola cultural que permite que uma organização — no sentido pleno que envolve também os acionistas — funcione como uma unidade coletiva. Esta cola cultural é composta por fortes normas e valores que influenciam a maneira como as pessoas se comportam, como trabalham em conjunto e perseguem as metas próprias da organização, dos controladores e da empresa.
Essa forma de missão poderá contribuir para a filosofia dos acionistas e da empresa, ajudando todos a
perceberem e interpretarem os acontecimentos da mesma forma e falarem uma linguagem comum”.
Quando uma empresa promove uma reflexão sobre o seu Propósito, trata-se de saber até que ponto os mem-
bros da empresa têm consciência de como realmente é a organização em que trabalham; o que ela está fazendo agora; qual sua posição na Paulo Conte Vasconcellos Paulo Conte Vasconcellos Sócio da ProxyCon e membro de Conselhos de Administração Sócio da ProxyCon e membro de Conselhos de Administração
comunidade; o que ela pretende a curto, médio e longo prazos; no que ela acredita.
Sem essa consciência, não há o que compartilhar. Sem compartilhamento, não há motivação. Sem esta, não há possibilidades de um aumento real de produtividade.
A Kopenhagen declara em sua missão que, “preocupada em proporcionar felicidade através de seus chocolates, está sempre atenta à s mudanças do mercado para inovar e ir ao encontro das preferências
de seus consumidores, oferecendo as melhores lojas, o melhor atendimento e o melhor produto para consumir e presentear. Trabalhando com prazer e emoção, visamos atender com excelência o interesse do investidor, a motivação do colaborador e a satisfação do consumidor”. Selecionei o exemplo porque traz vários conceitos que julgo importantes: felicidade, inovação, prazer, emoção, excelência, motivação e satisfação.
Idealmente, toda decisão e ação da organização deve orientar-se para o seu Propósito. Acontece que, na au
sência da clara definição de Propósito, a maior parte das pessoas termina agindo segundo o que cada qual acredita ser o Propósito da empresa, mas na verdade atendendo principalmente aos propósitos pessoais.
Quando o Propósito é nobre, as pessoas se sentem inspiradas a criar algo de efetivo valor. Por isso, quanto mais elevado for o Propósito da organização, isto é, quanto mais ele estiver comprometido com a geração de riqueza e bem-estar coletivos, maior a motivação das pessoas em trabalhar em conjunto e mais intenso será o sentimento de integrar uma comunidade. Por exemplo, quando um funcionário de uma área de reflorestamento de uma papeleira tem consciência que a muda de árvore que ele está plantando irá se transformar futuramente em um caderno escolar ou em um livro, ele tem mais motivação. Esta visão sistêmica do Propósito das organizações aumenta a motivação, a produtividade e a criação de valor.
Cabe aos acionistas e aos membros do Conselho de Administração o estabelecimento dos Propósitos da organização. É preciso ajudar a organização a estabelecer de forma clara e articulada o seu Propósito, quer auxiliando-a a defini-lo, quer ajudando-a a reafirmar um Propósito já estabelecido.
Como as empresas têm hoje um enorme poder de influência sobre as pessoas e a comunidade, Propósitos que levem em consideração os valores pessoais, familiares e comunitários contribuirão enormemente para o desenvolvimento de nossa sociedade.
Autor: Paulo Vasconcellos
Sócio da ProxyCon e conselheiro de empresas
* artigo anterior,
Foto: disponibilizada pelo site stock.xchng.com