Energia Mental
– da alegria da vitória ao desânimo da derrota nos esportes –
Com o desenvolvimento das técnicas e métodos de treinamentos, uma ênfase muito grande tem sido dada no aprimoramento de certos aspectos.
Muito normal que isto aconteça, pois o que diferencia o primeiro do segundo lugar muitas vezes está em detalhes, e são os detalhes que formam o conjunto e diferenciam uma obra prima de algo apenas bom.
Mas, muitas vezes, com os olhos excessivamente voltados para aspectos técnicos, envolvendo força, resistência e aprimoramento de detalhes, um aspecto fundamental tem sido deixado de lado, a criatividade.
Fator determinante na distinção entre o gênio e o bom, a criatividade é erradamente entendida apenas como sendo vinculada ao talento natural, quando na verdade tem muito mais a ver com o estado de espírito do atleta. A criatividade é nutrida pela mente do atleta.’
Trocando criatividade por tensão
O que acontece quando uma atenção muito grande é dada a alguma coisa?
Outros aspectos acabam sujeitos à desatenção. Facilmente há o crescer de “tensão” para se conseguir cumprir com o objetivo. Com “tensão” além dos limites saudáveis, há um desgaste de energia muito maior do que o que seria necessário.
Há temor que amplifica a sensação do medo, o medo de se errar.
Com o tempo começa a surgir a ausência da alegria em se praticar o esporte, e começa a haver uma troca de valores que surge sutilmente no início e com o tempo vai se tornando hábito.
Isto é facilmente observável quando em vez da celebração e da alegria de um lance bem sucedido entre os companheiros da mesma equipe o que se vê é a confrontação com o adversário, como se querendo mostrar: “eu te venci”, “eu fui melhor que você”.
Em outras palavras a troca de valores se reflete na troca de alegria – em se ter acertado uma jogada, ou ter feito uma bela performance, pela energia da raiva, manifestada através do sentimento de ter “batido” o oponente.
Certamente este jogo de energias tem um valor muito acima do que se pode imaginar.
A ausência de energia na mente é algo ilusório, mesmo para pessoas que dedicam suas vidas para isto. Certamente, num nível humano, não é possível não pensar. É possível e isto é aprendido em técnicas de meditação a se estabilizar o pensamento, mesmo que este seja a estabilização num estado que remete à sensação de vazio.
Quando forçamos demais numa determinada direção, objetivando obter algo, pode tornar-se muito mais difícil e “duro” de se obter o resultado, e mesmo assim ele poderá ser limitado pela capacidade dos adversários.
O oposto do que desejamos está contido em nossa caminhada. Chegar ao que queremos, e que constituem nossos objetivos, ou ao oposto de tudo que buscamos é o desafio. Um desafio que reside em detalhes, que deve ser direcionado pela clareza de propósito. Temos que aprender a conhecer este oposto, saber que ele está ali, e que é muito mais fácil de ser atingido do que nossos objetivos.
Caso não conduzamos nossas energias de maneira sábia e equilibrada, será mais fácil alcançar o oposto em vez daquilo que objetivávamos.
Capacidade aliada à força, sabedoria aliada ao conhecimento, criatividade aliada à técnica conduz à realização de projetos, mesmo os mais ousados.
Nesta área de detalhes, muito sutis por sinal, é que entra a importância de um trabalho paralelo que visa dar condições não só de o atleta atingir o ápice em termos físicos e técnicos, mas também a nível mental.
Espectro de um treinador
Um dos papéis de um treinador é o de identificar quem é quem no grupo. Saber conduzir o desenvolvimento de cada componente do grupo é um requisito fundamental para um bom treinador. Identificar e inspirar o uso daquela que é a qualidade principal de cada atleta trabalhar é a chave do sucesso. A identificação e, na seqüência, o aprimoramento da qualidade principal de cada atleta representa acionar a locomotiva que vai puxar todos os vagões do trem que representam as outras qualidades, componentes fundamentais do atleta ideal, ou em outras palavras, o atleta integral.
Orientar, ensinar, motivar, corrigir, incentivar, criticar e apresentar ao atleta todos estes componentes formam o espectro de atividades do treinador que busca o ideal para o grupo.
Simplificar o que é complicado é tarefa do treinador, mas o que vemos muitas vezes é o oposto, com treinadores complicando o que deveria ser simples.
Oito deveres de um atleta de alto nível
A beleza da técnica, do talento e da arte devem estar personificadas com alegria e descontração, combinados com a concentração, com a disciplina, com a tática e a garra, nas quadras, nos campos, nas piscinas, nos tanques de saltos ornamentais, nas pistas, e nos vários palcos onde os atletas se apresentam, tudo num nível máximo para cada um.
Alguns deveres fazem parte da formação de um atleta ou de uma equipe. Aqui serão listados oito destes deveres fundamentais:
1 – Seja em competições individuais ou coletivas, o atleta nunca deve se sentir só, independente de qual seja seu palco. Ele deve ter prazer em carregar a aura da equipe que o treina e que o prepara, mas acima disto, ainda, ele deve carregar consigo seus sonhos e ideais, assim como seus exemplos de vitória.
2 – Numa equipe ou entre competidores cada atleta deve aceitar a realidade que o envolve, mesmo que, não poucas vezes, ela seja diferente de como ele gostaria que fosse; este ‘aceitar’ nada tem de passivo, mas de sabedoria, que levará o atleta a usar de criatividade e flexibilidade, sempre visando adequar sua preparação de modo a dar o melhor de si, dentro da realidade a ele apresentada.
3 – Outro aspecto que pode ser extremamente positivo é o de aprender a gostar da qualidade e especialidade de outros, sejam companheiros de equipe ou competidores. Isto pode ser com o poder de observar e pode ser inspirado pela própria equipe de treinamento.
4 – É vital a cada componente do grupo, e isto se aplica mesmo a competidores individuais, aprender a ajudar cada um do grupo a fazer o melhor. Sensibilidade e capacidade de interagir são os requisitos básicos para este intento.
5 – Um quinto aspecto vital é saber identificar como ele pode agir para que outros membros de sua equipe reacendam a chama da auto-estima através de realimentar a qualidade principal de quem está em baixa.
6- Um sexto aspecto é cada membro da equipe sempre verificar como ele próprio está se comportando. Se está atuando dentro de suas características natas, ou fugindo delas.
7- O sétimo aspecto básico a cada membro de uma equipe é saber quando e como reorientar sua trajetória dentro dos processos, sejam treinamentos ou dentro de uma competição. Isto cabe, principalmente ao comandante técnico assim como aos membros da equipe, mas dentro de uma competição o próprio atleta deve assumir esta postura.
8- O oitavo dever está relacionado a Ser o seu melhor eu – e isto cabe a todos os componentes de uma equipe.
Exemplos que souberam ser seu “melhor eu”
Ser como você é; não querer ser outros ou como outros, ser o seu melhor é que faz a diferença, para si e para o grupo, e quando isto ocorre há satisfação, mesmo na derrota, pois interiormente houve vitória, você fez o seu melhor.
Há vários padrões que podemos identificar nas pessoas-atletas, aqui alguns poucos exemplos são lembrados:
Um deles vem com o atleta, cinco vezes olímpico, Oscar, do basquete, graças, além de sua técnica e determinação nos treinos, de uma grande auto-estima, digna de um campeão que é, com ou sem títulos.
Melhorar sua performance pessoal, esta pareceu ser sua meta, dia após dia, em sua vida esportiva.
Tirar o ‘sonho’ do dia-a-dia de um atleta com esta tipificação significa aniquilar o atleta. Melhorar sempre é possível, mas para isto deve haver equilíbrio entre as qualidades – no caso, determinação e técnica.
No vôlei alguns anos atrás se podia identificar o guerreiro na pessoa de Carlão,
o lutador-mor da seleção de vôlei, que mesmo duramente ferido se doaria até a morte. Ele sempre carregou a imagem do guerreiro que busca a vitória com a certeza de ser sua, mas que sabe que só com muita dedicação ela será possível. Tirar tal aspecto “natural” de ser guerreiro de um atleta como ele seria como amputar uma de suas mãos.
Na pessoa de Fernanda Venturini podia-se identificar a “artista”, aquela a quem não se impõem limites de posição ou métodos, ela é aquela que consertava o que parecia perdido ou criava o que parecia impossível, aquela que desenhava sem enxergar e que esculpia sem reclamar do material que recebia. O maior perigo para este tipo de atleta-artista é esquecer ou desconhecer sua própria natureza e acabar tornando-se “sério” demais. Este é o caminho para a sua auto-restrição e conseqüente repressão à sua maior qualidade.
O equilíbrio é um meio que, se não identificado de maneira clara, pode trazer como conseqüência a distorção de uma carreira e um futuro pelo menos muito mais difícil do que aquele que seria o mais natural.
A técnica e o talento têm um peso preponderante, mas é comum observarmos como atletas de alto nível, como Pelé, Paula, Oscar, Hortência, Rivellino, Zico, Falcão, e outros continuaram a crescer com o passar do tempo, em todos os níveis cada um em seu estilo.
Cultura esportiva – mudando paradigmas?
Todos os atletas citados foram adquirindo algo mais com o tempo, e este algo mais foi nada menos que aquisição de confiança, serenidade, visão e outras qualidades que refletem “equilíbrio”.
O equilíbrio em seus estilos pessoal sempre influenciou equipes.
Trazer este equilíbrio “pessoal” na vida de cada atleta é parte do desafio de uma equipe técnica. Quando isto é conseguido, os atletas-pessoas começam a traduzir este equilíbrio em suas performances, não apenas nos esportes, mas em suas vidas, suas famílias, e isto começa a ser transferido para seus fãs e admiradores.
A cultura esportiva pode ajudar a educar um povo, e pode ser um tremendo instrumento para mudar comportamentos, talvez o desafio maior em um país como o Brasil. Este é um desafio que somente aqueles que acreditam na superação de limites irão abraçar. Creio que o esporte pode ser um instrumento para transformar paradigmas.
O esporte envolve conceitos e muita, mas muita prática, mas é no seu contexto, mais que tudo, que podem abrir-se canais que possibilitem acessar novas dimensões comportamentais. O contexto determina o sucesso, que pode se revelar não só na vitória do campeão, mas na VITÓRIA daqueles que amam aquilo estão fazendo, e isto não pode ser resumido em termos de colocação ou resultados. A VITÓRIA, de fato, transcende resultados e classificações.
Texto de Herbert Santos
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Foto: disponibilizada pelo banco de imagens do site stockxpert