De um lado, voavam lembranças de Bohr, Planck, Einstein, Chadwick, Heisenberg e outros personagens que desenharam a história científica do século vinte com suas teorias que sempre me suscitavam questionamentos inspiradores.
De outro lado, minha mente recebia a visita de imagens que mostravam como Descartes, Galileu, Newton e outros fizeram algo muito similar no século XVII.
Entre os dois grupos havia algo em comum: ambos foram pioneiros.
Ambos visualizaram e desenharam o mapa com os caminhos que, depois, a população do planeta percorreria.
Quando aqueles pioneiros que habitavam os anos 1600 começaram a tornar público os seus pensamentos, estudos e descobertas científicas, eles viviam num mundo agrícola.
Quando eles começaram a impulsionar o trem do conhecimento com uma nova visão do mundo, para a época, a população mundial não estava ainda pronta para assimilar tudo o que eles haviam apresentado.
A visão cartesiana, o mecanicismo clássico e outros princípios apresentados naqueles tempos somente começaram a se tornar parte do dia-a-dia das pessoas comuns após cem anos de seu surgimento.
Em meados do século XVIII haveria a revolução industrial, responsável por várias mudanças que podem ser elencadas tanto por seus efeitos negativos, quanto positivos. Mas os fundamentos que possibilitaram tal acontecimento haviam sido plantados muito antes.
A forma de pensar, de planejar e de construir o mundo teve sua semente plantada dezenas de anos antes. Mas o desabrochar veio gradualmente e seus frutos duraram séculos até meados do ano 2000.
Quando nos vemos em pleno início de um novo milênio eu venho lembrar: há pouco mais de 100 anos, por volta de 1900 Planck e Einstein plantavam as primeiras sementes que dariam vida a algo novo: a visão quântica e a relatividade.
Neste momento, remeto-me há quatrocentos anos e me vejo em meio a carro de bois, diligências e a um mundo agrícola.
Há notícias de alguns “excêntricos” falando em início, meio e fim, em inércia, em ação e reação e imagino um cidadão da época. O mais fácil seria ignorar aquela “falação” e continuar a vida”. Como eles poderiam absorver tal carga de novidades?
Quando me transporto aos anos 1900 e imagino o cidadão da época fica mais fácil entender porque, hoje, mais de 100 anos depois de lançados os fundamentos da física quântica, relatividade e outros conceitos, totalmente novos para a época, a população ainda não absorveu os seus conceitos fundamentais.
No período entre os anos 1600 e 1900, por cerca de trezentos anos, a ciência e o desenvolvimento tecnológico puxaram a humanidade para mudanças de hábitos na forma de ser e de pensar.
No último século, desde 1900, muita coisa aconteceu, e a velocidade é algo estonteante, se pensarmos na internet, nas cirurgias a laser, nos meios de transportes e em muitos outros aspectos.
Imaginar a dona de casa ou o garoto que mora no campo como ainda não tendo noção do que está por trás das muitas mudanças na forma de vida é algo compreensível.
Mas o que me inquieta é ver que, mesmo nossas instituições, muitas delas consideradas modernas, não têm noção ou consciência de conceitos como os apresentados pela física quântica, por exemplo.
O fato é: a sociedade está sendo atropelados pelo desenvolvimento científico e, logo, novos paradigmas e fundamentos estarão assimilados por toda a população do planeta. Hoje ainda estamos engatinhando nesta realidade.
Minha inquietação é: enquanto a ciência move-se à velocidade da luz, os fundamentos filosóficos essenciais que a produzem vão se perdendo com o tempo.
Lacunas geradas pelo distanciamento entre uma nova visão, que origina novos conceitos e formas de ver o mundo e os frutos que dela se originam vão sendo criadas.
Sinto este processo como de grande risco. Voltando ao período de 1600 até hoje, sinto que fundamentos e filosofias que nortearam mudanças no planeta todo se perderam e o que é lembrado são os métodos, formas, fórmulas e resultados. O que gerou isto tudo acabou sendo esquecido.
Será que vamos repetir o padrão?
Vamos ficar nas fórmulas? Nos métodos? Nos resultados? Vamos perder a chance de fazer algo diferente desta vez?
Com uma visão científica entendo que alguns aspectos fundamentais do que estes célebres cientistas propuseram e provaram devem ser investigados e complementados. A seqüência deste processo não deve parar e isto não me preocupa: a busca é parte da mente científica.
O ponto que coloco é: sinto que estes fundamentos explicam muito mais que pode ser visto por olhos superficiais.
Como entender o momento?
Sinto que conceitos quânticos podem transitar por universos diferentes simultaneamente. Sinto que o trânsito entre o universo científico e o universo humano pode ser alcançado com muitas destas ferramentas desenvolvidas no decorrer do século vinte e com novas que estão sendo pensadas ou preparadas neste exato momento ou que virão a ser pensadas num futuro próximo.
Os universos científico e espiritual estão muito próximos no meu entender. São dimensões diferentes, mas presentes simultaneamente. Existe grande possibilidade de coexistirem em harmonia.
Para tanto, se faz necessário uma nova leitura e linguagem. Estas devem ser alimentadas por novos conceitos, muitos dos quais baseados na teoria quântica, na relatividade e em conceitos mais recentes que têm se apresentado e sido não só provados cientificamente, como já estão usados comercialmente.
É impossível fazer esta transição utilizando a mesma linguagem dos últimos quatrocentos anos. Assim como seria impossível explicar os conceitos quânticos com fundamentos da mecânica clássica.
Vejo que o desenvolvimento humano passa pelo resgate de seu próprio autoconhecimento. Penso que atributos básicos como: valores essenciais, propósito elevado, razão, intuição, percepção e criatividade devem ser revitalizados neste processo.
O entendimento do que envolve estes atributos pode ter acompanhamento e mesmo ajuda para serem compreendidos mais facilmente através do entendimento filosófico de novos conceitos científicos. Penso que a partir daí a distância entre a subjetividade e objetividade, entre o abstrato e o material podem começar a desaparecer e então, talvez percebamos, que eles são faces diferentes de um mesmo fenômeno
Autor: Herbert Santos
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